sexta-feira, 15 de abril de 2016

Quando a pressa é uma grande oportunidade para a perfeição!

. . . ouvindo "15 Step" do Radiohead!

Naqueles raros dias em que tudo deu certo, funcionou como o planejado, finalmente você emagreceu o suficiente para a roupa que preparou na véspera e as peças entraram, deslizaram!

Estava tudo a mão sem erros, lanches, almoço, material de trabalho, material de estudo e víveres para a mente e o corpo em mais um dia de trabalho de mais de 12 horas!

E você sai deslizando pela rua certa de que está até adiantada em seu horário de deslocamento até o local de trabalho, por hoje, fora de casa! Um imperceptível sorriso se pendura em sua face e um olhar sapeca brilha tanto que até incomoda as pessoas na rua! Chegará cedo, poderá falar daqueles assuntos que tanto queria com seu sempre atencioso chefe, poderá conversar mais um pouco com o pessoal fixo do trabalho, os que estão lá todos os dias e são colegas de trabalho muito importantes, essenciais pois veem tudo, sabem de tudo, observam tudo e que - muitas vezes por chegar em cima da hora - você fica mal por não ter dado o devido "bom dia!" com todo o carinho e atenção que eles tanto merecem!

Nesses dias em que tudo aparenta tamanha positividade, intimamente, você celebra: "Vou poder abraçar a todos! Dar atenção a todos! Poder saber um pouco deles e eles de mim fora do mundo profissional!"!

E segue feliz pela rua até o ponto de ônibus! Mais uma usuária do caríssimo transporte público da Grande São Paulo (um dos mais caros do mundo)! Mas não importa! Hoje é um dia em que tudo está dando sinais de que será super master blaster legal!

E até o ônibus se contamina de tão boa que é a energia! Segue pelas ruas feito um tiro! Pega todos os semáforos verdes! Mal você percebe e já está na hora de descer. Prepara-se, o ônibus vai se ajeitando para entrar na fila da próxima parada e então...

Você sente! Direto na panturrilha!

Aquela pancada!

Uma sacola cheia com alguma coisa pesada!

"Mas já paramos!" você pensa: "Não é inércia de reflexo do freio do ônibus...", mas o dia se ergue tão lindo, róseo e dourado com o amanhecer de outono que você sentencia "Deve ter sido sem querer e - na euforia silenciosa - não ouvi a pessoa pedir desculpas."! O ônibus vai se ajeitando lenta e delicadamente! Um verdadeiro milagre quando comparado a carroça e os trancos que dá nos "dias ruins"!

Outra pancada na panturrilha seguida de outras menores no braço e nas costas!

O sorriso desaparece e expiro ar quente! A mente ferve e o corpo queima assim como a mente já entrando em fúria: "Pra quê fazer isso? Ficar em cima do outro assim?! O ônibus ainda vai encostar na parada!"!

E o ônibus segue seu lento processo de encaixe na rua estreita, manobrando delicadamente para constituir parte da verdadeira serpente formada por outros que, como ele, apenas esperam a hora de chegar ao ponto certo de desembarque na parada.

Porque é assim as coisas são! Nem antes, nem depois! Faz parte da ordem no trânsito, na vida, na harmonia do Cosmo!

Exceto para a pessoa que está atrás de você, que continua com suas pancadinhas, batendo sua sacola e bolsas em você pouco se importando se incomoda ou dói. Insiste como se isso acelerasse o ônibus em sua manobra e em seu procedimento de desembarque ou fizesse você e as pessoas que estão a sua frente no sentindo da porta de desembarque desaparecerem no ar!

Mais pancadas! Você se prepara! Olha para trás por cima do ombro com os olhos espremidos e reconhece a face do "dia ruim"! Um olhar duro, opaco, feio, uma figura que até perde a feminilidade com os lábios apertados de tanta raiva por você, as pessoas a sua frente, a porta do ônibus, o próprio ônibus, o motorista, o trânsito, a rua, o mundo existirem!

"A PORTA AINDA NÃO ABRIU MOÇA! ME EMPURRAR NÃO VAI FAZER A PORTA ABRIR!" a voz sai da minha boca feito um trovão! Lá se vai o meu dia bom!

Ela nada diz, bate com a sacola novamente quando a porta se abre. Deixo as senhoras passarem a minha frente e todos os que igualmente tem pressa como de costume e também de propósito! Claro!

E como prêmio - a oportunidade perfeita - levo uma pancadona nas costas enquanto desço escadas.

Paro e olho para trás antes de terminar de descer:

"QUANTOS SEGUNDOS DO SEU DIA VOCÊ PERDEU BATENDO ASSIM EM QUEM NÃO TEM NADA A VER COM O FATO DE VOCÊ SER DESORGANIZADA E ESTAR ATRASADA MOÇA?!"

Ela só olha mais feio ainda - e era possível ficar ainda mais feia!

Prossegui em minha sentença sumariamente:

"...QUE SEU DIA DEVOLVA A VOCÊ TODA A PACIÊNCIA QUE TEVE POR NÃO ACEITAR QUE A PESSOA EQUIVOCADA AQUI É VOCÊ!"

E pronto! Ela se foi feito uma animal solto de uma jaula, quase correndo não fossem a sacola cheia e as bolsas. Fiquei parada balançando a cabeça em uma estranhamento e ao mesmo tempo alívio por colocar pra fora o que tanto me incomodava com aquelas pancadas.

Seguindo meu caminho até o trabalho, a pé, sem pressa, olho para o céu entre os prédios do centro da cidade e vejo o sol se erguer finalmente do Domo de Poluição que cobre a cidade e me lembro, que não importa o quão cinzentas as pessoas possam se esforçar para perturbar sua manhã: O Sol sempre sai de trás da capa de poeira e fuligem deixados pela irresponsabilidade de nossa espécie com o seu entorno e brilha, aquece e reina soberano! Sempre!

Portanto boas roupas deslizantes, manhãs boas, sacoladas, oportunidades perfeitas para se dizer o que pensa, dias bons e dias ruins para todos! Só não batam nas pessoas, ok? O mundo não é uma automóvel e mesmo no automóvel, acelerar não faz o trânsito ir mais depressa só porque você quer ou precisa!

Organize-se! Deixe tudo pronto! Acorde mais cedo! Faça do seu dia um prazer já na véspera!

Sei que é fácil falar!

Mas se não está a fim não desconte no outro que está!

Ou caquécoisa assim!

Bom dia!