Ouvindo "Clocks" do Coldplay
https://www.youtube.com/watch?v=d020hcWA_Wg
Em meus delírios de viagens mentais mais loucos, meus olhos emergem do mar da mesmice em um estalo e o sorriso rasga o meu rosto crispado pela dor da rotina, como um relâmpago.
Os olhos vão de um extremo ao outro dos cantos para contemplar sorrateiramente os algozes - meus aprisionadores - e sair logo em seguida na disparada.
Lanço a indumentária do cárcere para o alto, avançando prisão a fora, derrubando tudo o que me detém na gargalhada louca que é a libertação de tudo o que aprisiona.
Nesta arrancada maluca nem vejo como chego ao meu quarto para acrescentar o pouco que falta à bagagem, afinal a mala sempre está semi pronta! Sou mala sim! Mas com rodinha, giro 360 graus e tenho a alça puxada! Sempre estou pronta! Sempre! Para ir embora?! Sempre!
"... e nada mais se compara! E nada mais se compara!"
E deslizo pelas vias escorregadias prateadas da cidade rumo ao aeroporto! Conferindo pela décima quinta vez todos os itens, todas as listas, todos os documentos, todos os materiais, todas as cadernetas de campo, todos os equipamentos e mapas, todas as baterias, baterias e baterias!
O check in, a bagagem de mão amiga que auxiliará nas potentes dezenas de horas por ar e por terra rumo às terras geladas do norte!
Os olhares das pessoas para a minha indumentária russa polar a muito guardada e preparada, só me divertem mais!
Rindo, gargalhando por dentro nem vejo quando termino minha primeira conexão e já estou no avião sobrevoando a grande Sibéria! Abaixo de mim os céus do vala Manwë se abrem e eu finalmente a vejo! Kamchatka, a minha "terra esticada e explosiva"! Assim chamada pelo povo Ainu, um de seus primeiros habitantes! Esticada e explosiva! Isso me faz rir ainda mais!
E sigo sacudindo por terra de Petropavlovsky em um carro que nem com tração nas quatro rodas aguenta a buraqueira feroz da estrada para finalmente atingir um dos maiores objetivos de viagem da minha vida!
"... e nada mais se compara! E nada mais se compara!"
Sob o céu de chumbo e as temperaturas baixas do verão naquele "fim de mundo" chego ao vale de vulcões com nomes poderosos que colecionava em minhas viagens internáuticas se abrir a minha frente: o grandioso Opala, o magnífico Karymsky, o brilhante klyuchvskoy e o gigantesco koryalksy são só alguns dos mais belos vulcões onde a lava e a neve se fundem em cores incríveis, suas crateras furando os céus cinzentos da mais remota das terras me fazem chorar!
Ver os ursos escolhendo salmões a subir o rio Voyampolka, ajudar os koryaks a agrupar os cervos após a pastagem, cantar com os Ainu sob a luz da fogueira crepitante e debaixo de um dos céus polares mais belos do planeta.
Para que voltar pra casa?
Voltar para o que?
Ir embora é o que faz meu coração ficar em festa!
Desbravar mundos desconhecidos, ouvir histórias de povos esquecidos, viver do jeito que vivíamos a milhões de anos atrás, contemplar a face da mãe natureza nos animais mais belos, nos campos das mais gélidas flores, nas forças mais primitivas da Terra!
Quem quer saber de ir pra casa!
Só depois de viver tudo isso claro! Para contar as histórias!
Bons delírios de viagens mentais a todos!
Até chegar o dia de ir de verdade!
Ou caquécoisa assim!