ouvindo "I grieve" do Peter Gabriel
Alta madrugada de outono contemplando meu jardim de prata sob a
face da lua quase cheia... Percebo que ainda estou longe de entender que o que
acontece é apenas uma das faces de uma verdade cruel que ainda não se revelou
completamente e que muita dor ainda está por vir. Como sempre faço, vou pra
máquina, antigamente de escrever e agora de digitar e sua luz branca fere meus
olhos doentes, mas como não há muitas alternativas que doam menos... Que seja
então!
Este vai para todos os iludidos e suas construções monumentais que se tornam em quedas espetaculares diante de seus olhos dilatados pelo choque tardio. Esta vai para todos os que conhecem o fracasso monumental quando somos negados, dispensados, abandonados, descartados feito coisa que se tornou inútil quando se acreditava realmente parte de algo importante...
É dedicado a todos os que já desfaleceram, que sentiram que não há
mais ar nos pulmões, nem sangue nos lábios, nem eletricidade nos músculos, nem
nos ossos... Uma homenagem a todos os que passaram por aquele dado
momento em que se percebe que a onda é maior do que o fôlego aguentaria, que o
caminhão está mais veloz do que a velocidade de escape permitiria, que a porta
se abriu na hora errada e a queda é inevitável. É dedicado a este momento da
perda de todo e qualquer controle ou ilusão de controle.
Quem já passou por este momento singular sabe que se trata de uma
mera fração de segundo, aquele contado antes da parada cardíaca no ponto de
ônibus, antes da perda da consciência na ambulância, antes da convulsão no sofá
da sala de espera, antes da queda do corpo no chão da rua como um saco de
batatas.
A glândula pineal lança um jato de adrenalina que faz adormecer a
língua e formigar o couro cabeludo, as pupilas dilatam e o ar não entra pela
boca seca mesmo boquiaberta na forma de um grito que não sai!
O grito não sai!
O corpo quer se reerguer, quer se levantar, mas a mente não está
mais no comando... Somente a falência. A falência total e absoluta subindo
feito gelo glacial pelas pernas e braços.
As faces das pessoas se agitam, no escuro da rua, na clareza do
hospital, na face lívida dos parentes e amigos... Na face dos incrédulos e suas
análises torpes de psicologia de almanaque...
E todo o som que se ouve é o da mente perguntando: por que não
consigo me mexer?
A face do fracasso monumental paira logo ali sobre todos incólume!
E questiona:
"Tem certeza de que você não foi capaz de evitar isto?"
A cobrança é profunda, toda a sua vida até ali e todos os sinais dados passam
por sua mente em segundos. Você vê todas as chances! Tudo o que poderia ter
dito! Tudo o que poderia ter feito! Todas as oportunidades para evitar... Mas
não o fez! Não fez porque acreditou! Não fez porque comprou a briga achando que
valia toda aquela pena e todo aquele fardo! Não quis abandonar, nem desistir e
agora é tarde. Você não interessa mais. Foi perversamente descartada! Não há
mais como voltar atrás de nada! O corpo cobra de forma sumária e o comando não é mais seu.
O arrependimento ajuda a matar mais um pouquinho e a morte faz
mais um convite.
E você começa a suplicar por uma chance. Afinal assim como houve a
primeira, a segunda tem que ser certa! Faz promessas desesperadas para si mesmo
e para todos os presentes, deste e de outros mundos.
E após uma agonizante pausa tudo se cala e recua.
Aos poucos a volta para mais uma oportunidade de descartar as
escolhas ruins e fazer as escolhas certas vai emergindo entre doses maciças de
calmantes, antidepressivos e reguladores de pressão arterial...
E você pacientemente espera pela volta do governo de sua saúde, de
seu corpo, de sua mente... Pacientemente espera pela chance de tentar outra
vez. Quem sabe escolher melhor... Quem sabe não repetir os mesmos erros... Quem sabe ser parte de algo importante que te considere igualmente importante e pelo qual vale a pena lutar novamente.
Ou CaQuéCoisa assim.
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